NERD NO RINGUE #004
Postado por Pacha Urbano em 21 de dezembro de 2010 em Nerd no Ringue com as tags Action Figure, Beta Max, Brinquedos, Colecionáveis, Comandos em Ação, Discman, geek, GIJoe, HQ, iPod, jogos de tabuleiro, Livro, Master System, Mega Drive, nerd, Phantom System, pique-pega, polegar quebrado, queimado, Síndrome de Capgras, soldadinho de plástico, videogameJOGOS, BRINQUEDOS E DOIS BOLSOS FUMEGANTES!
por Pacha Urbano
Não fui uma criança muito agitada, ao contrário, passava muitas horas desenhando, assistindo desenhos animados na televisão, lendo histórias em quadrinhos ou um livro atrás do outro.
Diferentemente dos meus primos – e eu tenho muitos – não curtia futebol, queimado, pique-pega, estas coisas. Todo tempo livre eu me metia em atividades NERDs. Claro que isso só ficou nítido pra mim depois de muitos anos, quando a expressão se tornou corrente, e eu já tinha assumido minha nerdice de vez.
O mesmo valia para os meus brinquedos. Enquanto meus primos gostavam de carrinhos, bola, jogos de tabuleiro, eu preferia os soldadinhos de plástico, os bonecos de super-heróis e os Comandos em Ação, aqueles bonecos que o dedo polegar quebrava. Isso porque eu me dedicava a criar histórias pra eles, verdadeiras sagas, brincadeiras que duravam dias, semanas.
Não era tímido, era até muito falante e extrovertido, mas sempre gostei de dedicar parte do meu tempo submergido em mim mesmo, nas minhas idéias, no meu mundinho. Claro que isso não me impedia de confraternizar, passar a tarde jogando ou brincando com meus amigos ou primos, mas se fosse algo solitário, eu preferia gastar brincando com algo assim ou lendo histórias em quadrinhos e livros.
Tinha muitos amigos e brincava com eles, especialmente nas férias, de aventuras épicas, repletas de joelhos esfolados, pulsos abertos e um ou outro dente quebrado. Entre eles havia um que era muito meu amigo, um gordinho que tinha tios e padrinhos muito generosos. Eram dele os melhores brinquedos das redondezas.
Reparei que ele andava meio sumido, não o via quase, até que fui bater à porta dele. A mãe me atendeu:
- Se você está procurando pelo meu filho, acho que não o devolveram ainda, só deixaram aquela cópia estranha no lugar.
Até onde eu sabia ela não sofria da Síndrome de Capgras nem nada, o que me deixou intrigado, mas tive que concordar com ela quando o vi. Meu amigo havia se tornado um zumbi. A explicação não estava longe: ele havia ganhado de aniversário um videogame novo. Não era aquela coisa antiquada chamada Atari, era um espetacular Phantom System!
Ele já estava há mais de quatro horas jogando, a fonte do console estava em brasa viva, e na década de noventa toda mãe ordenava que a TV fosse desligada depois de algum tempo jogando, para não escangalhar. Havia uma tensão na casa.
Foi difícil tirá-lo de frente daquele aparelho, e mais difícil ainda foi me tirar de lá. Nunca tinha visto imagens tão alucinantes, histórias tão sensacionais e aquele visual futurista do cacete! Passamos horas jogando Mario Bros. Sonhei com cogumelos e estrelas à noite inteira.
Hoje, lembrando este episódio, fico pensando que os brinquedos foram deixando de ser lúdicos e passaram a vir prontos. As histórias prontas, o cenário pronto, tudo entregue de bandeja, sem esforço. Nós já não passávamos uma hora montando os soldadinhos no campo de batalha e depois gastávamos outras duas horas jogando, o enredo e as peças já estavam montadas, era como se fosse um filminho em que você controlava os personagens.
E as coisas foram ficando menos complexas à medida que o tempo passava. Já não era preciso trocar o lado da fita, já não era preciso ter um aparelho com caixas de som e carrossel para se escutar um CD, existia o discman.
Quando soube da existência deste aparelho fabuloso eu pirei! Passei anos acompanhando a evolução dele, diminuindo de tamanho vertiginosamente e ficando mais fino, mais econômico no consumo de energia (entenda-se pilhas), o que era interessantíssimo pra mim.
Foi então que quando eu trabalhava na tal editora (leia a NERD No Ringue #001) apareceu um chinês vendendo aparelhos eletrônicos. Seu nome era Ching, ou Chang, ou Wang, nunca soube ao certo, e era uma figura simpática. Mal falava os números de maneira compreensível, mas era muito eloqüente. Discorria sobre as funcionalidades dos aparelhos eletrônicos que vendia com muita naturalidade, como se tivesse trabalhado no desenvolvimento dos produtos.
Pelas mãos de Ching eu adquiri equipamentos incríveis! Mini-gravador, máquina fotográfica, relógio e um discman. Depois de anos de tentativas frustradas de conseguir um tocador de CD bacana, finalmente consegui um que coubesse na minha mochila, que me acompanhasse, que fosse a trilha sonora da minha vida!
Depois de quinze minutos falando as maravilhas do aparelho, Ching fala o valor sem dó nem piedade:
- Apalelio Sony tlecentos qualenta leais.
- Não há nada de leal neste preço, chinês traiçoeiro.
- Lelal não, leais, leais! – e fazia aquele gesto de dinheiro.
Antes eu havia sofrido o pão que o diabo amassou para ouvir meus CDs (como narrado em NNR #003), mas aí quando chegou o meu primeiro salário do meu primeiro emprego, aproveitei e comprei um micro-system que tocava CDs, mas que não tinha uma tecla que apreciava e invejava nos aparelhos dos meus colegas, a função skip.
Esta tecla skip (>>) era diferente daquela outra que fazia pular para próxima (>>|), esta literalmente fazia o leitor a laser deslizar pela faixa, de maneira que eu poderia ouvir qualquer trecho sem precisar escutar a música toda. E este discman tinha esta função fantástica, além, claro, das funções shuffle, repeat one e repeat all! Era a tecnologia Sony em minhas mãos, eu poderia fazer praticamente o que eu quisesse com um CD! Este aparelho também tinha outra saída de headphones, que eu poderia compartilhar o que estava ouvindo com outra pessoa. E ainda era AM e FM. Emocionante!
Ching depois de um tempo desapareceu do mapa, e até hoje não sei se ele foi deportado ou a máfia chinesa veio atrás dele. Isso se ele realmente era chinês, porque bem poderia ser coreano, ou malaio, nunca saberei. Só sei que o aparelho que ele me vendeu me acompanhou por muito tempo, até pifar.
Na ocasião eu andava com um case de CDs pra baixo e pra cima, com minhas músicas favoritas. Comprando pilhas de qualidade, poderia ouvir até seis CDs inteiros! O chato era ter que ficar trocando os CDs pra ouvir as músicas que eu queria, mas aí veio a era da Internet, e as pessoas começaram a baixar músicas e gravá-las em CDs, mixando como fazíamos com as fitas cassete. Um mundo novo se descortinou aos meus olhos. Já não era preciso ligar para as rádios para saber o nome das músicas, nem ficar vagando de loja em loja para comprar um CD (como eu tive que fazer por muito tempo, tá lá em NRR #002). Tudo estava à distância de uns poucos cliques.
Mas estas coisas aconteceram num curto período de tempo, e a tecnologia avançou violentamente. Hoje em dia até a sua geladeira toca MP3 e tem joguinhos eletrônicos.
Passados dez anos eu tenho um iPod de 80Gb, com tanto espaço que nem cheguei a encher metade. Além disso, tem joguinhos eletrônicos mais sofisticados que os do Mega Drive, Phantom, ou Master System juntos. O meu celular toca MP3, tira fotos de 2 megapixel (minha primeira câmera digital era de disquete, e as fotos eram de no máximo 1.6 megapixel, ou seja, uma por disquete), tem joguinhos legais, acessa à internet, tem editor de texto, e um monte de outras coisas que não uso.
E tá lá o PSP (Play Station Portátil), que além dos jogos eletrônicos e dos vídeos, ainda acessa a internet via Wi-Fi, tem um aplicativo que simula o Office, toca MP3 e tem espaço pra muito mais coisas.
Se soubesse que em tão pouco tempo teria todas estas, não teria ficado tão desesperado pra escutar minhas músicas.
Tudo isso diminuindo de tamanho, ficando menor do que aqueles estojos nipoparaguaios que as mães muambeiras das coleguinhas da escola traziam para as filhas. Lembram?
E lá se vão reais, dólares, euros…
Uma chefe uma vez me disse: “Pacha, adulto e criança é tudo igual, o que muda é o preço dos brinquedos!”. E ela tinha razão, porque a cada ano que passa novas traquitanas vão sendo criadas para nos distrair e obcecar.
Hoje em dia sou fissurado por TVs de alta resolução, as famigeradas FullHD, que tiram o meu sono e o meu sossego. Fico me sentindo como na época em que vi um vídeo cassete pela primeira vez, um Beta Max. Aquilo foi impactante, porque você poderia ver seus filmes favoritos a hora que quisesse, e não ficar torcendo pra passarem na Tela Quente ou na Sessão da Tarde.
Só que isso é papo para outra coluna.
P.S.: E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)






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