E agora, Spidey?

Leia a crítica da peça Turn of the dark

Postado por Annacro em 29 de junho de 2011 em Nerdices com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , ,
Still Bad?
por Thiago Risi

A nova moda da Nova York é o Spider-Man. Críticas para cá, elogios fervorosos para lá, acidentes e interrupções por problemas de segurança, pré-adolescentes histéricos ao ver seu ídolo voando bem pertinho de seus narizes. A expectativa em relação à peça Turn of the dark é grande desde o ano passado, inclusive aqui no Nerdbox.

A produção, recordista em gastos na história da Broadway (US$ 74 milhões), talvez tenha sido também a recordista em tempo de preview. De novembro até o dia 14 de junho, lá se foram 7 meses de quedas, correções, mudanças de direção, roteiro, cenário, músicas, marcas, enfim… tudo mudou.
Explica-se: o preview é o momento de se testar o espetáculo, sentir a reação do público, antes que ocorra a estreia oficial. Muitas vezes, o preview acontece em outras cidades, para não “queimar” o show.

Existe um acordo de cavalheiros na Broadway: peça em preview não pode ter crítica publicada. Mas ninguém aguentaria calado tanto tempo segurando suas opiniões sobre um espetáculo tão caro, tão aguardado, e com atores se esborrachando no chão, roteiro medíocre e música tão diferente. E aí choveram críticas, mesmo antes da estreia oficial.

Tive a chance de estar em Nova York em outubro do ano passado e, ao lado do meu hotel (fundos do FoxWoods Theatre), no meio da rua, a equipe técnica do espetáculo cortava madeira, pintava cenário, calibrava luzes, recebia figurinos. Cheguei a entrar e colocar o pé no palco, bem no estilo Impostor, ao ver as portas abertas e um gigantesco cenário brilhando na minha frente. Meses depois, aquele e muitos outros cenários nem estavam mais lá, prova de que muita coisa mudou.

Voltei para Nova York no dia 14 de junho de 2011, dia da estreia (finalmente!) do nosso amigo Aranha. Minha rua estava fechada pela polícia, lotada de fotógrafos, imprensa, curiosos e fãs de todos os tipos: de musicais, do Homem-Aranha, do vovô-garoto Bono Vox e da estrelinha Reeve Carner (que faz o Peter Parker). Um pouco irritado e com muitas malas (dentro delas, um par de ingressos para o dia 16), consegui chegar em casa.

O mundo do teatro estava voltado para a cidade que nunca dorme. No sábado, 11, o ácido e divertido Book of Mormon se consagrava recebendo 9 Tonys (o principal prêmio da Broadway), incluindo melhor musical. Anything Goes, com uma atuação magistral da estrela e melhor atriz da temporada, Sutton Foster, ganhava o melhor revival de musical.Para fugir do Tony desse ano, o Spider preferiu estrear 3 dias depois do prêmio, e concorrer só em 2012. Na Broadway, nada é por acaso.

Os jornais do dia seguinte à estreia agora podiam, oficialmente, publicar suas críticas. Um título em letras garrafais, no New York Times, era taxativo: “Still Bad”. E mais um dia se passou, até que eu pude comprovar pessoalmente tudo aquilo que falaram.

Com um cenário em quadrinhos, ao mesmo tempo moderno, móvel, deslizante, efeitos especiais inéditos na Broadway, homens-aranha voando em cima da plateia e guitarras gritando o tempo inteiro, Spider-Man, a princípio, impressiona. Mas o roteiro…

A história do adolescente Peter, que é picado por uma aranha e vira um super-herói, não é novidade para ninguém. Seu romance com a moçoila Mary Jane, também não. Seu rival verde tentando destruí-lo, muito menos. Os quadrinhos já contaram, o teatro já contou, o cinema contou… e o musical repetiu, igualzinho. Sabe aquela sensação de que você já sabe o que vai acontecer no final? Então, acontece.

Para Julie Taymor, deve ter sido difícil dirigir esse espetáculo. Contratada a peso de ouro, a diretora carrega um grande peso nas costas. Sair pela porta da frente do teatro na 42 e dar de cara com o New Amsterdam (onde ela montou e ganhou os Tonys de melhor musical e direção com o mágico Rei Leão, sucesso desde 1998) não deve ser fácil. (aliás, foi tão difícil que ela foi vazada em março, e o diretor Philip McKinley foi contratado para o seu lugar)

A grande pergunta é: vale a pena pagar e assistir ao Spider?
Se você fechar os olhos e abri-los somente dentro do teatro, pronto para se divertir, receber chuva de teia de aranha e dar a sorte do espetáculo não parar por problemas técnicos, vale muito a pena.

Veja algumas cenas, bastidores e entrevistas com o U2 crew e com o dublê que se acidentou

Mas e se eu abrir os olhos antes? Em frente ao Aranha, na 42, a Mary Poppins sorri, com seu guarda-chuva. E andando pela Broadway até o Studio 54, mil outras luzes, sorrisos, teatros e cartazes vão falar com você. Todos esses espetáculos têm roteiro, luzes, orquestra, atores, diretores de primeira linha. Você vai acabar seduzido por um deles e entrar.
Para quem já tem uma coleção considerável de Playbills (a revistinha de manchete amarela distribuída em todos os musicais), ou para quem dá uma rápida pesquisada no que está em cartaz, o Aranha não é sua primeira opção.

Mas e se eu abrir os olhos só depois? Aí está a grande qualidade do Spider-Man. A Broadway precisa de renovação. E ela deve começar desde o público. Todo esse sucesso está tirando os jovens de casa e os trazendo para o circuito dos musicais nova-iorquinos.

Spider-Man serve como porta de entrada para o mundo de musicais. E o Peter Parker é um ótimo anfitrião para você começar. Assim como foram os gatos de Cats na década de 80, o leãozinho Simba em O Rei Leão, na década de 90 e as bruxas do Wicked, no século 21.

Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. E o cinquentão Homem-Aranha ainda tem poder.