NERD NO RINGUE #008

Postado por Pacha Urbano em 19 de julho de 2011 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

NÃO MORRE TÃO CEDO

por Pacha Urbano

Como que saído da tumba, volto a esta coluna muito feliz e contente, porque choveram emails pedindo o meu retorno! Mentira, chover não choveu, mas foi muito bom ver que tem muita gente que curte a NNR e que pede por mais. A vocês, obrigado.

E falando em levantar-se da tumba, lembrei de como era difícil acordar de manhã para ir pra escola, e como me sentia realmente um morto-vivo do caminho da casa da minha tia, onde morei quase toda a infância e adolescência, até a escola. Ia quase me rastejando.

Porém, num semestre entre a sexta e a sétima série, se não estou enganado, eu passei a acordar muito mais animado, disposto, ansioso por ir para escola, fazer fila, cantar o hino, ir para a aula e no recreio correr para a biblioteca. Ah, a biblioteca, aquele lugar repleto de ensinamentos, aquele templo do saber!

Não estava exatamente interessado em livros, o meu negócio naquela ocasião era a saliência, como diria minha avó.

Certo dia vejo que a biblioteca está aberta e entro. Como um bom NERD pré-internet, não havia lugar melhor para nerdar do que uma biblioteca.

Naquele espaço cheirando a mofo e com livros velhos até em cima, freqüentado por ninguém, havia duas meninas muito inteligentes e divertidas. Como mencionado na NNR#007, L., 15 anos, parecia ter muito mais idade do que tinha, era mulata, de lábios grossos e de fala rápida, como uma metralhadora. R., 16 anos, era morena, de cabelos cacheados longos, de olhos pequenos e dentes muito brancos, um doce de criatura. Ambas cuidavam da revitalização da biblioteca, fechada desde o final da década de 80. Além de organizar e cuidar de doações de novos livros, elas tinham uma disputa acirradíssima: quem conseguiria arrebanhar mais membros, no bom sentido, para a biblioteca.

Os métodos eram os mais ardilosos possíveis. O desavisado que entrasse lá, seria jogado na arena com as duas leoas e receberia um beijo de cada uma e teria que dar a nota na hora. E assim elas iam montando seus rankings pessoais e aliciando leitores.

Elas pareciam saber o que estavam fazendo porque a freqüentação do lugar aumentou consideravelmente em pouquíssimo tempo. Foi assim que fui fisgado, que encontrei a promiscuidade.

L. me segura pela gola da minha camisa de tergal e me beija, um beijo molhado, por cima dos meus lábios, enfiando a língua na minha boca sem que eu estivesse preparado psicologicamente pra isso. Me assustei, óbvio.

Ela me vira, me passa pra R., que segura minha nuca e tasca um beijo quente, vigoroso, de adulto.

Elas me soltam, como se nada tivesse acontecido e perguntam:

- E então? Qual a nossa nota?

- Ehh… como assim nota?

- O melhor beijo, a nota de cada beijo. De 1 a 10, rápido.

- Eu… eu… olha, eu… eu fui pego desprevenido, e aí eu… como vou dar nota pra um beijo?

- Dois. Dois beijos diferentes.

- Ok, dois beijos… como eu vou dar nota?

- Ué, um é bom, outro é melhor. Você dá a nota maior pro melhor e a nota menor pro mais ou menos.

- Mmmmm…

- Xiii… ele é tímido, R., acho que não vai voltar à biblioteca.

- Olha, eu dou 8 pro da L. e 9 pro da R., porque… porque… sei lá, foi menos… forte, não sei explicar.

- Há! Ponto pra mim, de novo!

E a partir deste dia eu passava na biblioteca regularmente para pegar livros emprestados e receber novos beijos, aprender coisas novas, enfim, literalmente fazer escola. Esta troca de experiência rendeu duas amizades muito bacanas e durante todo o ginásio nós fomos muito próximos.

Numa das visitas à biblioteca, entre buscar um beijo e um livro, encontro uma pérola. Algo do qual eu nunca teria acesso se não fosse esta situação bizarra de promiscuidade e busca pelo saber.

Encontrei um livro perdido entre outros da sessão de Religião, chamado “A Serpente E O Arco-íris”, de um autor canadense que eu não conhecia chamado Wade Davis. No livro, este etnobotânico afirmava ter vivido uma experiência de zumbificação no Haiti.

Beijei as meninas e levei o livro pra casa. Devorei-o em poucos dias e descobri que o livro deu origem a um filme de terror muito ruim de mesmo nome, mas que aqui no Brasil foi chamado de “A Maldição Dos Mortos Vivos”, de 1988.

Na história do livro, que o filme se apropriou muito pouco, Wade Davis sai em busca de um pó mágico, usado em rituais vodu, chamado “pó de zumbi”, que segundo se crê, faz com que a pessoa morra e volte a vida, obedecendo às ordens de um mestre vodu. Na verdade, as substâncias usadas neste pó quando combinadas, levam a pessoa a um estado próximo à catatonia, à quase morte, causando danos severos ao sistema nervoso. O indivíduo afetado por este veneno pode enlouquecer ou mesmo morrer por conta deste estado. Enfim, uma história muito triste, e que foi usada com tons de terror de baixo orçamento no filme.

Engraçado pensar que a referência que temos dos zumbis venha dos filmes estadunidenses de terror e não desta origem religiosa africana, da magia negra. Alguns filmes abordaram esta temática mística, mas por conta da Guerra Fria, a maioria das versões envolve armas químicas usadas por militares.

Em outro momento voltarei a falar sobre a filmografia dos zumbis, mas é que lembrei de um episódio ridículo em que o zumbi era eu, definitivamente.

Não lembro o ano exatamente, mas foi numa festa que acontecia no Cine Íris, um cinema que durante o dia apresenta filmes pornográficos e show eróticos e que à noite abre suas portas para festas alternativas no Centro do Rio de Janeiro.

Estava eu tomando a minha quarta ou quinta dose de vodka, mais pra lá do que pra cá, sentindo-me extremamente sozinho e deprimido, a visão da derrota.

Então, lá me achava vagando e o DJ ataca um clássico, “Bittersweet Simphony”, do The Verve, me jogando num abismo sensitivo.

Olhava ao meu redor e via tudo borrado, meus amigos dançavam um pouco distantes de mim e eu lá perdido, com um copo de vodka na mão, no meio da pista.

Até que vi que alguém me encarava. Apertei os olhos e entrou em foco uma menina no melhor estilo Amèlie Poulain – que estava muito em voga na época – alguma coisa entre frágil e instigante, me encarando, com uma sombra pesada e um sorriso na boca.

A música foi me embalando e nós não tirávamos os olhos um do outro.  Decidi ir até ela e arriscar uma idéia. Algumas pessoas me esbarravam, o copo de vodka caiu da minha mão e mesmo assim segui em frente, de mãos dadas com o palhaço, aquele fantasma que guia os embriagados.

De frente pra ela, vi uma agitação difusa ao fundo, e tentando focalizar, vi dois amigos meus acenando, dizendo que não, com cara de desesperados.

Nos acordes finais, a menos de um passo de distância da Amelie Poulain Wannabe, ela fecha os olhos, eu também, e sinto sua mão passar pela minha cintura, me puxando, ao mesmo tempo que outra mão, bem mais áspera e pesada, me puxa pelo ombro, em sentido contrário.

O DJ, inspirado, ataca “Where Is My Mind”, do Pixies, na seqüência, e ato contínuo, levo um soco na testa, com tanta força, que sou jogado para trás.

Sinto um oceano de pessoas atrás de mim, me amparando, me tocando, e a música entra em meus ouvidos como se fossem anjos cantando no céu. Frank Black não poderia estar tão certo em seu refrão, estávamos em comunhão naquele momento. Por onde andava a minha mente?

Entorpecido pelo álcool, atordoado pelo soco, via tudo girar, as luzes piscando, as cores, as pessoas rindo, e eu caindo para trás, para longe…

Não vi o empurra-empurra, não vi o deixa-disso, não vi meus amigos me levando pro cinema na parte de baixo, nem o segurança levando o traído para fora da festa.

Só lembro do uivo de Frank Black na minha cabeça, ecoando no dia seguinte, insistentemente.

Também não encontrei mais a garota, afinal, com tantas outras com as mesmas características físicas da Amèlie Poulain, seria quase impossível localizá-la. Além do mais, ela tinha compromisso com um cara dono de um direto de esquerda devastador, e uma pontaria horrível. Se aquele soco tivesse me acertado o meio da cara, hoje eu estaria muito parecido com o meu cachorro, o Tacuba.

Nesta época eu era um zumbi, vagando de um lugar ao outro, sem me encontrar, numa época em que quem flechava os cupidos era eu. Mas flechava de raiva.

Mas este é um papo para uma outra coluna.

 

 

 

 

P.S.: E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)