NERD NO RINGUE #009

Postado por Pacha Urbano em 04 de novembro de 2011 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , , , , ,

TEMPORADA DE CAÇA

por Pacha Urbano


Vocês nunca ficaram aborrecidos com o Cupido?

Pra essa geração nova que não deve saber do que estou falando, Cupido é aquele molequinho loirinho, de asinhas e tanga, que vive carregando arco e flechas, e acertando o coração das pessoas numa tentativa (frustrada muitas vezes) de fazê-las apaixonarem-se.

Pois então, eu passei boa parte da minha vida com raiva dele. Ou deles, porque acredito que não seja um só. Eles devem existir aos milhares, como moscas.

Voam por aí, assobiando alguma cançãozinha irritante, melosa, e com aquelas bochechas rosadas e cachinhos dourados esvoaçantes, escolhendo os seus alvos de qualquer maneira, que nem a cara deles, como se fossem cegos.

Fiz uma retrospectiva da minha vida emocional (ou comédia romântica? ou tragédia grega?) e cheguei à conclusão de que minhas paixões estavam, em sua maioria, tortas. Vinha colecionando amores não correspondidos, namoros minguados, paixões platônicas, relacionamentos impossíveis.

Porém, a culpa não poderia cair tão somente sobre estes putinhos, porque senão seria desculpismo da minha parte, e não é bem assim. Só que gostar de alguém ou sentir-se atraído é algo fora do nosso controle, o que os torna os principais culpados. Certamente.

Claro que também tenho minha parcela em tudo isso, mas não é possível que estes cupidos tenham errado tantos alvos comigo!

Estes pulhas me fizeram (fazem?) apaixonar por mulheres que não estavam nem aí para mim, ou por aquelas com quem as chances de acontecer algo eram ínfimas, ou ainda por mulheres já estavam acompanhadas, ou apaixonadas.

Quando não, acertavam a flecha venenosa da paixão em alguma mulher por quem não sentia nada por mim, senão, amizade, ou só carinho, resultando sempre no famoso “Fatality Friendship”, aquele fora bonito que só as mulheres afim de outra pessoa – e querem te manter por perto para dar aquela aplacada na carência delas de vez em quando – sabem fazer, mais conhecido como: “Vamos ser só amigos…”

E há uma particularidade nas flechinhas destes pentelhos voadores, que é a anestesia-veneno.

A anestesia-veneno, contida nas setas, quando atingem o seu coração, o fazem entorpecer, e você perde as sensações de crítica, noção de ridículo, auto-estima, amor próprio, e muitas outras emoções extremamente necessárias na lide diária.

Assim que começa a circular pelo corpo e pelo cérebro, as substâncias tóxicas contidas nesta anestesia-veneno instala-se quase que por completo no organismo, tirando o seu apetite, ou ativando-o desenfreadamente, ou ainda ocasionando aquele incansável friozinho na barriga, te fazendo suar, e chega até a gerar uma cegueira e surdez agudas, que te incapacitam de ver os erros e incompatibilidades mais absurdos entre você – além, claro, a capacidade de ouvir os conselhos mais sensatos de amigos, parentes, estranhos e especialistas.

Há casos em que esta peçonha causa paralisia intelectual, imobilizando mentalmente o atingido, impedindo-o de reagir aos infortúnios da paixão, tornando-o ainda mais patético – outro sintoma muitíssimo comum entre as vítimas dos cupidos, o patetismo – e indefeso.

Sendo assim, na ocasião, ao me dar conta deste fenômeno, comecei a engendrar o meu plano de extermínio destes flechadores alados. Pelo menos até encontrar um com uma pontaria boa, que não fosse tão capão. Pois bem, caros leitores, eu havia declarado guerra aberta.

A Temporada de Caça aos Cupidos havia começado!

Lembro que quando publiquei este pequeno manifesto em meu blog (na época hospedado pelo IG, chamado de Blig, que Deus o tenha), choveu emails, comentários e até mesmo ameaças! Pânico nas ruas, quebra-quebra, gente chorando, briga de faca…

Agüentei firme uma série de infortúnios, foras homéricos, discussões acaloradas, mas apesar de não apoiarem minha iniciativa violenta, todos concordavam que estávamos diante de uma calamidade pública sentimental.

Finalmente, após muito quebrar a cabeça e quase ter virado emo – o que na época era impossível já que não existia nem a espécie nem o termo –, segui meus instintos e fui pesquisar, buscar informações. Fiz uma série de entrevistas, inclusive procurei por ex-namoradas, casos, ficantes, no melhor estilo Alta Fidelidade, e cheguei à conclusão que eles não eram culpados, ao contrário, eles eram vítimas.

Estavam em extinção.

Procurei por especialistas, inclusive indo ao IBAMA, e ninguém soube me dizer exatamente qual era a situação demográfica destas criaturas míticas.

A verdade é que com o tempo eles foram ficando obsoletos, decadentes, enfermiços, e as pessoas cada vez mais imunes aos seus encantamentos, mais frias. Tive a oportunidade de encontrar um deles, no auge da minha ira, quando tinha sido detonado por uma ex-namorada no pior momento da vida, amargando numa fossa que nem os boleros conseguiram cantar até hoje, e antes de levar uma flechada no meio da cara ele me disse:

– Por favor, por favor, não faça isso… você está cometendo um erro terrível… eu fiz o meu melhor, estamos trabalhando sob muita pressão, tente entender… (grito gutural)

Existia alguma organização clandestina que os mantinha em péssimas condições de trabalho. Enfim, se eu soubesse deste background na ocasião não os teria caçado tão acirradamente, e quem sabe hoje não seria uma merda apaixonar-se outra vez.

Faz tempo que não vejo nenhum deles, já que o último que me atingiu há seis anos atrás. Provavelmente restam muito poucos cupidos por aí.

Soube que o comércio e a indústria do entretenimento, no intuito de fazerem subir as vendas e aumentar o consumo nas épocas de Valentine Day e Dia dos Namorados, vêm aliciando outras criaturas míticas para ocuparem o cargo que antes eram de cupidos, mas os resultados têm sido desastrosos como se pode imaginar.

Erês, sacis, duendes, faunos, curupiras e até exus vinham sendo recrutados, até junho do ano passado segundo o Data Folha, para realizarem a triste tarefa de juntar pessoas apaixonadas. Com salários baixíssimos, clientela desmotivada e sem recursos emocionais e metas megalomaníacas a cumprir, estes indivíduos vivem no limiar do trabalho escravo.

Soube na boca miúda (e aqui não posso citar a fonte para preservar a integridade moral e física do meu contato) que o então CEO da organização por trás destas criaturas aladas, mais conhecido como Santo Antônio, estava foragido. Ninguém mais sabia ao certo de onde vinham as ordens.

Mas, no que realmente podemos acreditar?

Sabemos apenas que está cada vez mais difícil encontrar pessoas interessantes e dispostas a se envolverem e que relacionamentos estão dia a dia mais voláteis e rasos. Estaríamos diante de uma nova era? A morte do romantismo? Ou como diz o ditado desta nova geração “se você quer romance compre um livro”?

Mesmo depois de ter realizado uma pequena carnificina, ou cupidicídio, continuava insistindo em enamorar-me por aí. Cheguei mesmo a pagar micos incríveis, como no dia em que eu…

Ah, já está bom por hoje, vamos deixar este papo para uma próxima vez.

P.S.: E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pachaurbano@gmail.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)