NERD NO RINGUE #010

Postado por Pacha Urbano em 15 de novembro de 2011 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

ROMANCE DE MERDA

por Pacha Urbano

A coluna de hoje não é para você que é delicado ou tem o estômago fraco. Esta coluna é para quem não tem nojinho, para todo aquele que tem nervos de aço.

Ok! Estou sendo dramático, mas o papo hoje é escatológico. Na verdade, não era para ser, porém, acabei lembrando de uma história, e aí esta puxou outra e acabei me vendo obrigado a revelar um segredo. Um segredo tipicamente masculino.

Já escreveram quilômetros de papel e barra de rolagem sobre o que as mulheres fazem no banheiro. Ao contrário dos homens elas preferem ir em dupla, ou em grupo. Nós homens não, nós preferimos a jornada solitária. Afinal, um ambiente asfixiante como o banheiro masculino não pede companhia, pede determinação, perseverança e sangue frio.

Então não tentarei aqui especular sobre o banheiro feminino. Serei categórico em relação a isso, nem adianta pedir.

Entretanto, hoje contarei um segredo que vem sendo guardado à sete chaves, passado de geração a geração, mantido oculto das vistas femininas por séculos, quiçá milênios. Poucas foram as mulheres iniciadas por estes caminhos, as que assumiram o controle sobre seu corpo e mente e conseguiram realizar os rituais masculinos no banheiro.

Sei que serei perseguido por isso, arrebanharei inimigos, mas a verdade tem que ser dita, não tem porque escondê-la por mais tempo.

Há alguns anos atrás trabalhei em um escritório que abrigava várias empresas, logo, compartilhávamos os mesmos banheiros.

Vivia paquerando uma garota que trabalhava lá, muito tímida, meio recatada, que chamaremos de C. Ela era estagiária de alguma coisa que não faço idéia do que seja, nem nunca fiz, e transitava pelas dependências do lugar como se fosse um coelhinho assustado. Quase não falava com ninguém e mantinha-se discreta nos mínimos movimentos que fazia.

Certa vez tiveram que interditar o banheiro masculino, forçando os homens a usarem o banheiro feminino, o que gerou muita polêmica, obviamente. Homens não são muito — como vou dizer sem ofender? — cuidadosos. Não têm noção de altura, profundidade ou largura, e conseguem errar uma estrutura de cerâmica branca à sua frente e mijar tudo ao redor. São incapazes de acertar um alvo imóvel, grande e de “boca aberta” esperando-os. A inaptidão masculina em acertar a urina no vaso sanitário é semelhante à limitação do Tiranossaurus rex em ver a presa que está parada. Costumo dar um conselho aos meus colegas de má pontaria: “Se você não sabe mirar, senta!”

Não é preciso dizer que no segundo dia o caos já imperava. O banheiro feminino, ao contrário do masculino, não tinha mictório, somente dois vasos sanitários, separados por cabines. Para complicar ainda mais, eram daquelas cabines em que você consegue ver quem está dentro, ou seja, zero privacidade. Logo, para que você pudesse fazer o número dois em paz e tranqüilidade, você era obrigado a fechar o banheiro, anulando uma das cabines, por assim dizer.

Tínhamos um problema sério na ocasião que era um dos colegas do escritório, dotado de uma capacidade peculiar de empestear todo o andar logo após sua ida ao toalete. Até hoje se especula do que é que o desgraçado se alimenta. Quando ele voltava do banheiro vinha com ele uma onda fétida que deve colocar inveja nas retretes do filme “Quem Quer Ser Um Milionário?”. E não havia spray desodorizante que desse conta do estrago feito nas narinas. Quando sentíamos cheiro de flores sabíamos que por debaixo havia uma camada de bosta. Era um pesadelo.

Éramos obrigados então a esperar a Primavera Falsa passar para conseguirmos ir ao banheiro. Numa destas ocasiões, aconteceu um fato que considero um dos maiores micos pelos quais passei.

Como os corredores eram pequenos, e o caminho para a copa era o mesmo dos banheiros, muitas vezes tínhamos que dar passagem para que outra pessoa pudesse atravessar o corredor, e quando estava indo dar uma mijadinha, eis que encontro C. vindo da copa com um copo d’água na mão. Fui cortez e a deixei passar, puxando algum assunto qualquer, sobre o tempo, ou qualquer coisa do gênero, no que fui devidamente ignorado.

Entrei no banheiro, e como de costume, fechei o trinco e levantei o assento para não molhar nada, seja por acidente, seja por má pontaria.

O que eu não contava era com o que eu iria encontrar ali, boiando em berço esplêndido, um incrível espécime de tolete. Estava claro que o maldito cagão havia passado por ali antes de mim.

Aquele era um tipo raro de cocô, era em curva, feito por um perito.

Existem diversos tipos diferentes de cocôs. É uma universo vasto e sempre em expansão, cabendo toda sorte de variedades e nomenclaturas. Aproveito para apresentar os 15 tipos mais conhecidos por aqui e como são conhecidos lá fora:

1. O Ninja (The Shadow Of The Ninja)

É aquele cocô que sentimos sua presença, sabemos que ele esteve ali, mas misteriosamente desapareceu.

2. Sucuri Jibóia (The Anaconda)

É aquele cocô de proporções anormais, em espiral, geralmente fruto de horas em churrascos ou rodízio de carnes.

3. Choquito (The Corn Shit Bar)

É aquele cocô cravejado de milho, pedaços de cenoura, ou quaisquer outros flocos crocantes. Em geral são dolorosos de expelir, não é preciso dizer.

4. O Grande Truque (The Little Giant)

É aquele cocô em que não se fez qualquer esforço para pari-lo, entretanto, é colossal! Convém preocupar-se.

5. Biscoito de polvilho (The Charlatan)

É aquele cocô ao contrário ao O Grande Truque. Faz-se um tremendo esforço para que ele venha ao mundo, espera-se um Sucuri Jibóia, por exemplo, e no entanto o resultado é frustrante, semelhante a comer um biscoito de polvilho.

6. Fúria de Titãs ou O Leviatã (The Kraken)

É aquele cocô em que passa-se horas tentando contê-lo, você sabe que se arrependerá de libertá-lo, mas é uma fera que precisa ser liberta. Na sua cabeça você ouve Zeus dizer: “Release the Kraken!”, e o resultado é devastador: suja-se tudo, espalha-se água para todo lado, pessoas correm assustadas, pânico nas ruas…

7. Nhoque da Fortuna (The Pillows)

É aquele cocô que vem em pequenos exemplares, como se fossem sachês. Por mais que se tente expeli-los por inteiro eles se partem.

8. Chandele (The Chocolate Mousse)

É aquele cocô que o nome por si só já explica. É triste. Geralmente ao fim tem que se limpar como quem limpa a boca com um guardanapo.

9. 20 Mil Léguas Submarinas (The Nemo’s Nautilus)

É aquele cocô que não flutua, ele simplesmente submerge, como se fosse um submarino.

10. Splash! (The Shit Spray)

É aquele cocô que não está mais em sua forma concentrada, é mais um borrifo.

11. Golfinhos de Miami (The Flipper)

É aquele cocô que você o ejeta e ele volta para te saudar, saltando da água. São muito difíceis de controlar.

12. O Polvo (The Octopus Ink ou The Mist)

É aquele cocô que ao atingir a água libera uma tintura misteriosa que oculta sua presença, de maneira que você não sabe se ele continua lá ou já se foi.

13. Monstro do Lago Ness (The Loch-Ness)

É aquele cocô que você não tem certeza se é um cocô mesmo ou se é alguma outra coisa boiando para fora da água. Geralmente é visto em vasos sanitários que não foram devidamente limpos.

14. Apocalipse Now (The Capitan Kurtz Quote)

É aquele cocô inexplicável, como o são as guerras, em que você não encontra palavras para descrevê-lo, só olha assustado e repete: “O horror! O horror!”

15. O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray)

É aquele cocô que não combina com quem o fez. É o retrato do que há de pior no interior do indivíduo, por mais que seu exterior seja só beleza. São muito comuns em modelos e artistas de cinema e TV.

E é aqui, amigos e amigas, que o segredo será revelado.

Nós homens, quando estamos no banheiro mijando nós brincamos. Solitariamente, muito mais dentro de nós do que externamente, nós brincamos.

Pode parecer uma besteira, entretanto é um momento de profunda importância para o funcionamento do cérebro masculino, seria o equivalente a uma desfragmentação de disco. São minutos de pura catarse, em que o espírito masculino desprende-se do corpo e percorre léguas a dentro de seu subconsciente.

Mais do que uma distração, é um exercício de meditação e muitas ideias geniais surgiram destes momentos ímpares. Segundo contam as más línguas, parece que Nikola Tesla descobriu a Corrente Alternada num destes momentos em que pensava em como conduzir energia do Niágara até Buffalo. Dizem. Não há nada registrado que comprove isso. A grande verdade é que nós homens nos distraímos enquanto urinamos porque brincamos com nosso mijo.

Pois é, meninas, não se iludam, dos homens mais lindos aos mais feios do mundo, todos brincam com seu jato de urina.

Há várias brincadeiras bacanas que podem ser feitas com seu esguicho. A mais conhecida é O Resta Um. É um jogo simples, mas requer muito preparo por parte do jogador. É necessário um jorro forte e constante, de maneira que a bolinha de naftalina do mictório migre de uma casa (entenda-se por furos na louça do mictório) para outra, até restar apenas uma. Dada as dimensões dos mictórios a partida acaba rapidamente. Outra é a chamada Caipirinha, em que você tem que empurrar o gelo para cima das rodelas de limão que são deixadas dentro dos mictórios para eliminar o cheiro. Seguindo este mesmo raciocínio foi criada inclusive uma campanha publicitária em banheiros públicos bem interessante.

E eis que eu estava lá, olhando para aquela estranha criatura fecal e me ocorre, instintivamente, brincar com o jato de urina tentando parti-lo em pedaços. A brincadeira com a qual eu estava me distraindo era a Jack Estripador (The Butcher), em que o jorro de urina destrincha papéis higiênicos ou fezes que estiverem no vaso sanitário. Mas estava sendo muito difícil.

Durante aquele breve minuto de divertimento, consegui inclusive solucionar um problema com a ilustração para uma matéria sobre “Orgasmo Anal”, para a revista feminina em que eu trabalhava.

Terminados os trabalhos, ainda fiquei intrigado com aquela forma curva e estranha do cocô ali deixado e ao dar descarga não deixei de pensar na dificuldade que o dono teve para expeli-lo; era robusto o danado e não queria descer por nada. Uma vez, duas, nada. Desisti de mandá-lo para a Bahia de Guanabara e lavei as mãos, dei aquela última olhada no espelho, e saí do banheiro.

Quis o azar me pregar uma peça: ao sair dou de cara com C., que parecia ansiosa esperando que eu saísse de lá de dentro. Não tinha como disfarçar, não tinha como fazê-la mudar de idea e não entrar. Para completar o mico, ela entrou na cabine em que eu estava.

Ela iria pensar que o cocô era meu. Claro que ia. Afinal, eu estava trancado lá dentro, havia dado descarga algumas vezes, e ele permanecia lá. Não tinha como eu gritar pra ela: “Ei, este cocô que você encontrará aí não é meu não, heim! Já tava aí quando eu cheguei…” Quem acreditaria nisso?

Se eu tinha alguma chance com C. ela desceu pelo ralo.

Dali em diante o meu dia foi uma merda, se me permitem o trocadilho involuntário. Fiquei tenso, não conseguia olhar para os lados, tinha medo de pegá-la me espiando de longe, com nojo. Foi horrível. A partir deste dia então nunca mais quis cruzar com ela nos corredores, e muito menos dividir o mesmo elevador. Sabia que dentro de sua cabeça eu tinha ganho uma etiqueta de cagalhão. E isso era humilhante demais.

E mal sabia eu que aquele cocô era dela.

Mas isso aí já é um papo para outra coluna.

P.S.: E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pachaurbano@gmail.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)