NERD NO RINGUE #011

Postado por Pacha Urbano em 14 de dezembro de 2011 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , , , , ,

ESCURINHA DO CINEMA

por Pacha Urbano

O episódio do banheiro da empresa (ler NNR#010) foi bem impactante pra mim. E um dia fui almoçar com uma amiga  do trabalho e acabei confessando a ela o que rolou. Claro que ela caiu na gargalhada, não esperava outra coisa. Entretanto, fui surpreendido com uma informação terrível:

— Não fique assim não, Pacha, porque não tenha dúvidas que ela ficou bem mais envergonhada que você. Aquele cocô era dela. C. é a mais cagona da empresa.

Estava completamente estarrecido. Aquela menina toda delicada era capaz de horrores inimagináveis.

— Dorian Grey… — pensei alto demais.

— O que você disse?

— Não nada, nada. É que realmente a notícia é chocante. Nunca imaginaria que dela saísse tanta tristeza.

— Ha ha ha ha ha! Você não sabe da missa o terço. Ela dorme no banheiro, se você quer saber. Fecha a tampa do vaso, senta-se e estica as pernas na porta e tira altos cochilos. E no final faz aquele estrago lá que você viu.

Rimos muito com aquilo, mas no fundo no fundo fiquei chateado pela idealização que havia feito ter descido descarga abaixo. E como andei muito tempo numa maré de azar amoroso, até caçando Cupidos (como visto em NNR#009), acabei passando a freqüentar o cinema como nunca antes.

Porque se tem uma coisa que gosto desde pequeno é de ver filmes, então cinema pra mim é a maior diversão, como diria o Sr. Severiano Ribeiro. Mentira, nem sempre cinema é a maior diversão. Em muitos casos cinema pode ser uma experiência traumática. Tem filmes que mexem com a gente de maneira estranha, como se nosso inconsciente estivesse plasmado na tela. Mas não são destes traumas de que quero lhes falar. São de outros, talvez piores.

Teve uma vez em que cheguei a ir ao cinema umas seis vezes numa mesma semana e em todas estas vezes eu vi uma menina, a mesma menina esperando pelos filmes, nos mesmos horários que eu.

Era engraçado porque parecia que nós tínhamos combinado. Estávamos sempre com cara de quem acabara de sair do trabalho e assistíamos aos mesmos filmes. Aquilo começou a me intrigar, obviamente. Bom, o que me intrigava mesmo é que ela era muito bonita e estava sempre sozinha, apesar de trazer nos olhos alguma coisa que não sabia dizer o que era.

Tomei coragem um dia e puxei conversa com ela na fila da compra de ingressos. Papo vai, papo vem, ela fala que também reparou em mim, mas ficava sem graça de puxar assunto, e que era estranho alguém como eu ir sozinho ao cinema. Aplicou o bom e velho golpe do elogio gratuito. E funcionou: me cativou.

Pensando agora, nós nunca havíamos sentado perto apesar de termos sempre visto os mesmos filmes. Em geral só a reencontrava na saída, com aquele olhar engraçado. E desta vez optamos por sentar lado a lado e continuar conversando enquanto não se apagavam as luzes.

Ela era divertida, embora tivesse um gosto estranho para filmes. Pelo que entendi, aqueles que assistíamos não faziam o seu gênero, mas ela os assistia assim mesmo. O que ela gostava era de filmes que se passassem em lugares exóticos, como O Paciente Inglês, ou Kundun. Naquele dia assistiríamos ao filme O Livro de Cabeceira, que na boa, não foi a melhor pedida.

Quando as luzes baixaram H. se ajeitou na poltrona e colocou a bolsa no colo. Passaram os trailers de uns quantos filmes europeus e asiáticos e começou o filme em si, já que naquela época não passavam comerciais como hoje. Olhei pelo canto do olho e ela estava com o rosto voltado em minha direção. Aquilo me deu um friozinho na barriga.

Alguns minutos de projeção depois e senti a mão dela encostar na minha. Estávamos disputando educadamente quem apoiaria melhor o braço no apoio da poltrona, no que aproveitei o inconveniente e deixei lá nossas mãos se tocando. Não demorou muito e era seu joelho resvalando suavemente no meu. Tentei não demonstrar nenhuma estranheza, mas acho que deixei escapar um sorriso, o que instintivamente me fez virar de leve a cabeça em sua direção, e lá estava ela olhando pra mim, como antes.

Fiquei sem graça e me ajeitei.

Na tela Ewan McGregor aparecia completamente nu trocando intimidades com um japonês, e vi que ela se agitou na poltrona. De soslaio, a vi abrindo a bolsa, tirando de lá um pacote redondo.

Virei levemente a cabeça para poder acompanhar seus movimentos: Colocou no assento ao lado a sua bolsa e abriu no colo o embrulho. Tomei um susto com o barulho.

O papel manteiga fazia um esporro terrível, e até algumas pessoas olharam para trás em repreensão. Em seguida vieram sons plásticos e adivinhei que eram talheres, garfo e faca, no que virei pra ver o que era de fato.

Me engasguei com uma pipoca. Era uma pizza! Não era possível que ela havia trazido uma pizza brotinho pra dentro do cinema e ia comê-la de garfo e faca, ali, do meu lado. Apertei os olhos no escuro e constatei algo ainda mais absurdo: não era uma pizza, era um pretzel gigante que ela tentava partir com os frágeis e ruidosos talheres de plástico.

Somado a isso havia o barulho do açúcar cristalizado chacoalhando sobre a superfície lisa do papel manteiga. Era um chiado irritante.

Continei olhando pra ela embasbacado e hoje tenho certeza que meu queixo devia estar levemente caído.

— Tá servido? — me perguntou.

— Não, obrigado, bom proveito. — respondi virando o rosto pra frente, não acreditando no que estava acontecendo.

H. comeu todo o pretzel, fazendo os barulhos acima descritos, como se estivesse sozinha em casa. Ao final quebrou o garfinho e a faquinha com estalos altos, provavelmente para que ninguém voltasse a usá-los no futuro. Amassou o papel manteiga com os cacos dos talheres dentro, sem se importar com o estardalhaço que fazia.

Cavoucou algo no interior de sua bolsa. Notei que era uma embalagem de Halls, no que ela desembrulhou a primeira balinha e colocou na boca. Ouvi um croc croc de trituração e senti o cheiro mentolado chegando de mansinho em meu nariz. Me distraio vendo a japonesa do filme pintar caracteres no corpo de alguém e sinto a boca de H. próxima ao meu ouvido:

— Quer um drops?

— Não, não, obrigado. É que ainda estou comendo pipoca, não queria misturar os sabores — respondi assustado e em seguida pensei: “Ferrou! Ela tá mal intencionada!”

Pelos seus movimentos deduzi que ela estava abrindo e colocando outra Halls na boca. Croc croc. Cheiro mentolado. Outra vez abriu mais uma bala. Outra vez o croc croc, outra vez o cheiro mentolado. Em pouco tempo ela comeu toda a embalagem de Halls, e eu me sentia em meio a uma floresta de eucaliptos. Ela comeu tudo como quem come M&Ms.

Quando eu menos esperava, porque me distraí vendo uma cena muito bizarra no filme, ela encosta a boca no meu ouvido, ao mesmo tempo em que segura minha mão com firmeza. Ouço sua respiração, o cheiro de menta, os lábios molhados encostados no lóbulo da minha orelha.

— Olha pra mim… esse filme tá muito chato.

Joguei uma quantidade absurda de pipocas para dentro da boca. Mastiguei com dificuldade. Uma casca de milho agarra-se na parede da minha garganta. Pigarreio. Ela enfia o nariz por trás da minha orelha e cheira leeeeentamente.

— Olha pra mim, cheiroso. Olha só…

E nisso ela puxa a minha mão para cima da perna dela. O que me intriga até hoje é como ela conseguiu fazer com que ao mesmo tempo em que colocava minha mão na sua coxa ela fazia o meu cotovelo encostar no seio dela. Em outro momento isso seria completamente erotizante, mas ali estava sendo um terror. A situação estava fora do meu controle. Ela tinha comido um pretzel gigante (de garfo e faca), e em seguida detonou um pacotinho de Halls inteiro, em minutos. Tremi.

No filme o japonês mantém relação sexual com o seu editor enquanto a filha pequena vê tudo por um biombo. No cinema uma mulatinha que eu acabara de conhecer estava me assediando sexualmente depois de ter comido um pretzel gigante (de garfo e faca) e de ter detonado uma embalagem inteira de Halls como quem come caramelos de leite.

Outra vez ela se aproxima do meu rosto, cada vez mais perto. Me sentia como a Ripley, personagem de Sigourney Weaver em Alien 3, completamente travado de medo do monstro que tentava me devorar. Não sabia o que fazer, porque lá no fundo ficar com uma mulher bonita como ela era algo legal, mas a infeliz era muito bizarra. Quem levaria um pretzel gigante (e comê-lo de garfo e faca) para dentro de um cinema e ver um filme do Peter Greenaway?

Fingi que ela não estava ali e continuei olhando fixamente para a tela.

Num último esforço ela segurou meu queixo e puxou meu rosto para o seu, me beijando à força. Beijá-la era como passar pasta de dente diretamente na língua. Deixei o saco de pipocas virar no meu colo, com o susto, fazendo ainda mais barulho. Vagalhões de “Shhhh!” arrebentaram-se sobre nós. Foi horrível.

Afastei meu rosto do dela, me desvencilhando de sua mão e disse:

— Desculpa, mas sou fiel à minha namorada. — menti, estava mais sozinho que umbigo.

E me virei pra continuar vendo o filme, com os olhos arregalados, e tentando não me mexer muito.

Ela ainda ficou um tempo ali olhando fixamente pra mim, podia senti-la ferver. Pegou a bolsa, levantou-se e saiu da sala bufando.

Nem sei mais se estava vendo o filme ou se estava fazendo hora pra dar tempo de ir embora sem risco de encontrá-la. Estava chocado. Uma avalanche de bizarrices havia caído sobre mim.

Fiquei pensando no que leva uma pessoa a agir daquela maneira, tão impulsiva e sem noção. Era como se eu fosse apenas algo que ela queria muito ter naquele momento, custasse o que custasse. Me senti como uma mulher deve se sentir, afinal, elas sofrem muito mais este tipo de violência. Foi a primeira vez em que me trataram como a um objeto.

A segunda foi quando estava transando com uma garota de apelido engraçado e no meio da ralação ela começa a falar sem parar sobre música, ignorando completamente minha presença.

Mas pensando bem, acho melhor contar esta história na próxima coluna.

P.S.: E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)