NERD NO RINGUE #012

Postado por Pacha Urbano em 30 de janeiro de 2012 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , ,

NA CAVERNA COM O DRAGÃO (Parte 1)

por Pacha Urbano

A história que vou lhes contar hoje aconteceu há alguns anos mas está fresquinha no altar das bizarrices que já me aconteceram. Comparada com o episódio do cinema (ver NNR#011) ou do banheiro da empresa (lá na NNR#010) talvez seja até amena. Porém, na ocasião me causou uma tremenda estranheza.

Primeiro pelo ineditismo, segundo pela total falta de noção da figura.

Como vocês sabem, acho até que já disse aqui nas colunas anteriores, que vivo sozinho desde muito tempo. Daí aprendi a ser uma boa dona de casa, de costurar a cozinhar. Principalmente cozinhar. Só que quando você vive sozinho o ato de ir para cozinha e preparar a comida pode ser ainda mais solitário e chato. Se você está voltando do trabalho então é bem pior.

Num destes regressos para casa, decido descer na estação de Marechal Hermes, bairro em que vivia perto, para jantar. Tanto tempo só comendo a minha gororoba não estava ajudando muito e precisava me alimentar direito. Tendo isso em mente, porque apesar do que possa parecer sou um cara preocupado com minha saúde, decidi comer um cachorro-quente, duplo, completo.

O lugar não poderia ser outro senão no BeeGees. Alguns amigos e eu chamávamos aquela barraquinha assim porque o dono era a cara de um dos integrantes do BeeGees. E não é que chegando lá encontro meu amigo Wolminho?

— E aí, rapaz, você por aqui!

— Coé, Pacha! Ainda bem que você apareceu. Vai pagar meu cachorro-quente.

— E eu lá tenho filho de bigode? Por que eu deveria te pagar um cachorro-quente?

— Porque perdi dinheiro por sua causa no sábado.

— Por minha causa?

— É por sua causa. Você me fez perder uma aposta.

— Como assim? Explica isso.

— Tu ainda quer que eu te explique? Você é que tem que me explicar. Qual foi daquela mina lá no 911?

Pausa para explicação:

911 era o nome de um bar na esquina de onde eu morava, em que algumas bandas de hardcore, ou qualquer coisa do gênero, se apresentavam e reunia os roqueiros-come-lixo das redondezas, entre eles meus amigos e eu. O lugar era só uma casa, com um bar no fundo, em que se vendia cerveja e vinho baratos, o som era horrível e a freqüentação sofrível. Enfim, perfeito se você estivesse duro e sem nada para fazer num fim de semana. Não me pergunte a razão do nome, não fui eu quem batizou o lugar.

Voltemos à nossa programação normal.

— Ah, aquela do lacinho vermelho no pescoço?

— Porra, Pacha, que outra? A que tu catou lá.

— Mmmmm… Vocês fizeram aposta do que, Wolminho?

— Do que? Do que? Se tu ia arrastar a mulher pra tua casa.

— Sério? Não acredito.

— Um monte de gente também não acreditou, só eu e me ferrei. Perdi dinheiro lá pro pessoal.

— Ah, foi mal, mas não era pra apostar nada, né?

— Como não? Tu tá aí há quanto tempo no seco? Dez anos?

— Dez anos?! Tá maluco… A situação está sob controle.

— Sob controle? A galera tá preocupada contigo, cara, essa porra adoece a gente, Pacha. Empedra. Tem que colocar pra fora. E achei que seria naquele dia e tu me dá aquele mole. Me fez perder dinheiro, Pacha. Dinheiro.

— Tá bem, vou te pagar o cachorro-quente, mas só pra você parar de me acusar e deixar de amolar.

— Agora, explica, o que foi aquilo? Tu tava lá com a gente, rindo e tal e de repente olho pro lado e cadê o Pacha? Passou um tempo e nego apontou tu lá atracado com a mina. Conta isso aí.

— Aê, Deise – o nome da ajudante do BeeGees, que estava sempre trabalhada no henê – me vê dois completos duplos aqui pra gente. Pô, teve uma hora que eu fui ao banheiro e na volta vi que tinha uma mina me olhando. Encarei e ela não deixou de me encarar de volta. Aquilo me intrigou. De onde a gente tava ela continuava me olhando e tal, daí decidi ir lá falar com ela.

— Tá me zoando? Tu ir lá falar com a mulher? Você é o maior cagão, Pacha.

— Wolminho, eu tinha tomado quantas cervejas? E o raio daquele vinho ruim? Aquilo é igual kriptonita vermelha, dá revertério num sujeito como eu. Fui lá ver qual é.

— E aí?

— E aí que puxei assunto, e ela lá me olhando nos olhos com aquele olhar preguiçoso dela. Nem lembro o que ela respondeu, mas dali a pouco ela me deu um beijo e aí a gente se pegou.

— Assim? Simples assim, Pacha? Tu é mó travado, mermão.

— Eu sei, mas foi assim.

Mentira, caros leitores, não foi assim. Eu queria simplificar a história para ele me deixar em paz. O que aconteceu foi o seguinte:

Eu: — Oi, garota. O que você faz aqui com este lenço no pescoço?

Ela: — Oi, garoto. O que é que você faz aqui bebendo este troço ruim da porra?

Eu: — Desculpa, acho que não te ouvi direito… mas também acho esta banda ruim da porra.
Ela: — Eu tô falando do vinho.

Eu: — Se eu sou novinho? Não tanto, tenho vinte e poucos, e você?

Ela: — Se eu quero ficar com você?

Eu: — É! É!

Ela: — Quero, pô, tô te olhando desde que cheguei e tu lá demorando.

Eu: — Ah, onde tô morando? É aqui perto.

Ela: — Pra eu chegar mais perto?

E me agarrou e me deu um beijo.

— Você quer que eu acredite nisso, Pacha.

— Bom, acreditando ou não, foi assim. E aí a gente ficou e tal, curti pra cacete, ela beija bem.

— Tá, e por que não arrastou a mulher?

— Como assim, arrastar? E eu lá sou um troglodita?

— Pacha, a mina lá na tua mão, tu mora ali do lado, levava ela lá pra tua casa, porra.

— É, não rolou. Vamos ver semana que vem como é que vai ser. Será que ela vai?

— Tá de sacanagem. Não pegou o telefone dela? Como assim tu me dá um mole desse?

— Ué, esqueci, sei lá. A gente se beijou e ela foi embora logo em seguida.

— Come esta porra deste cachorro-quente antes que eu te coma de porrada, Pacha. Francamente.

A semana passou, chegou o sábado e ela não apareceu. Como eu não sabia o nome dela e nem o telefone não adiantava muito.

Na outra semana a encontro voltando pra casa, na barraquinha de cachorro-quentes do BeeGees. Achei engraçada a coincidência. Aproveitei pra comer o completo duplo e conversar um pouco com ela. Descobri seu nome, onde estudava, estas coisas. Acabamos ficando de novo, foi muito bom.

Ainda na mesma semana voltamos a nos encontrar e quando o clima já estava muito quente eu lancei a proposta. Ela topou e no dia seguinte o encontro foi lá em casa.

Dali uns dias me encontro na hora do almoço com o Wolminho, no Centro, onde trabalhávamos.

Virava e mexia almoçávamos num restaurante subterrâneo que chamávamos de Caverna do Dragão. Não que a comida fosse ruim, mas é porque o garçom que nos atendia era muito parecido com o Mestre dos Magos.

— E aí, Pacha, comeu?

— Acabei de me sentar, cara, nem pedi ainda. Qual o prato do dia?

— Não, pô, a mina.

— Como assim se eu comi? A gente nem se conhece direito.

— Pacha, século XXI, lembra? A Deise me falou que tu tava lá todo enganchado na mina de lencinho. Só podia ser ela.

— Ah sim, nos encontramos. Caraca, esta Deise é uma tremenda fofoqueira!

— Não a culpe, tu tava lá todo Animal Planet com a mulher. Mas e aí, desta vez levou lá pra tua casa?

— Que isso, cara. A gente tá se conhecendo, estas coisas levam tempo…

— Você leva tempo pra aprender, Pacha! Ô, Mestre, dois bife a cavalo aqui pra gente no capricho. Mas fala aí, não é possível que você ainda não comeu esta mulher, mermão.

— Bom, comi.

— Puta que pariu, finalmente! E aí, me conta este troço, porra. Mas eu quero detalhes, heim, detalhes!

— Ah, cara, foi ruim.

— Ruim? Broxou?

— Não, não, nem broxei. Quer dizer, depois de um tempo fiquei frapê. Saca frapê? Aquele estágio entre o sólido e o pastoso…

— Porra, Pacha, eu tô comendo.

— Eu também estava na hora, mas aí a mina… sei lá, nunca vi aquilo.

— Não vai me dizer que… Não, não é possível… Ela era hermafrodita?

— Que isso, cara, não, não! Ela era normal. Quer dizer, normal, normal não era. Acho que ela era um bocado maluca.

— Sei, mas o que foi que aconteceu afinal de contas?

— Longa história. Só te adianto que foi estranho, bem estranho.

— Tá de sacanagem comigo que você não vai me contar o que aconteceu?

— Ah, já deu a hora de voltar lá pro trabalho. Tu sai que horas?

— Aquele horário escroto de sempre.

— Então a gente se encontra lá no São Jorge Camurça e eu termino de contar, pode ser?

— Combinado então.

E como sou lento para comer e também para contar uma longa história, nada mais justo do que deixar um espaço para vocês digerirem estas bizarrices e preparem suas entranhas para a próxima coluna.

Nos vemos em NERD No Ringue #013 – Na carverna com o dragão (parte 2) daqui a quinze dias!

E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)