NERD NO RINGUE #013

Postado por Pacha Urbano em 09 de fevereiro de 2012 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , , , , ,

NA CAVERNA COM O DRAGÃO (Parte 2)

por Pacha Urbano

Pode não parecer, mas tenho um carinho todo especial por aqueles botequins de azulejo escuro de tão encardidos daqui do Centro do Rio de Janeiro.

São lindos aqueles jarros de cebolinhas em conserva e aquele galho murcho de arruda no copo d’água. Em geral, o balcão, de madeira escura, tem aquela camada de gordura que confere ao ambiente uma beleza singela, típica de uma cozinha antiga, de casa velha.

O refrigerador, ainda de fórmica, as prateleiras cobertas de poeira, e o São Jorge, no altarzinho, de frente pra rua, com aquela lâmpadazinha vermelha e a garrafa de cerveja aberta do lado.

Os mais ingênuos colocam São Cosme, São Damião e Do Um, com um pratinho de doces disposto diante da imagem. Maria-mole, cocada, suspiro, cocô-de-rato, pirulito, tudo já petrificado.

É bonito. É uma coisa bonita de se ver.

E os quadros na parede?

Fiado Só Amanhã, Aqui Jazem Antigos Fregueses (desenho de uma sepultura com os escudos dos outros times), o pôster do Botafogo campeão já desmanchando, recortes de jornal amarelos, a folhinha do Sagrado Coração de Jesus…

Ah, não posso me esquecer daquelas garrafas de bebidas exóticas. Cachaça com caranguejo dentro, Pau Pereira, Levanta Defunto, Abaixa Pau, e o bom e velho vinho São Roque.

Os quitutes – meus prediletos. O quibe antigo, o ovo colorido, a coxinha de galinha queimada de tanto ficar na estufa. O chouriço, o pernil assado, a farofa, o feijão com salgados, a calabresa acebolada, o toicinho…

Há alguns que são mais sofisticados e expõem sanduíches complexos de bife à milanesa, ovo frito com alface, carne assada com tomates, fritada.

Mas, os que mais me fascinam mesmo são os banheiros. Puxa vida, os banheiros são especiais.

Colocam fotos de artistas do rádio ou vedetes para indicar Cavalheiros e Damas. Mickey Mouse e Minnie também já vi pintados à mão. As naftalinas no mictório hoje são substituídas por singelas rodelas de limão. A cerragem em volta do vaso, os telefones de pederastas rabiscados na porta de madeira velha. Aquele forte cheiro de amônia, a tampa suja com marcas de sapato, a cordinha da descarga já encardida, quase puindo.

É inegável que existe certo romantismo em tudo isso.

Desde a baratinha tímida que caminha sobre os salgados na vitrine, até na guia do orixá pendurada na prateleira. Do cartaz da Caracu, àquela garrafa de Velho Barreiro pela metade há séculos. Existe beleza nisso. Eu vejo.

O bigode esverdeado de nicotina do balconista, o avental manchado de laranja do garçom, a unha preta do cozinheiro que prepara o Prato Feito, o piso quadriculado fosco em que pisamos, o estofado duro do banquinho giratório, a fórmica que belisca o braço no balcão.

O espelho sem aço em cima do lavabo, a toalha de papel sempre ausente, o detergente verde inodoro que pinga pra sempre na pia.

O mofo na parede, a umidade que desce do forro de gesso sujo e confere ao lugar um clima angustiante de nostalgia.

O ventilador de teto parado desde a instalação. As mesas que balançam, os porta-copos pegajosos, o copo americano, o café forte e dormido.

E claro, aquele São Jorge coberto de gordura e poeira da rua que parece ser de camurça. Por isso chamávamos aquele botequim de São Jorge Camurça.

Neste cenário peculiar estávamos Wolminho e eu, bebendo e conversando sobre minha experiência bizarra (ver NNR#012).

— E aí, como é que foi lá com a mulherzinha?

— Cara, vou te dizer que nunca me senti tão usado em minha vida.

— Porra, então foi ótimo! Como é que tu tá dizendo aí que foi ruim?

— Mas foi ruim, cara. A mina é doida, tô te dizendo.

— Para de enrolar então e conta, pô!

— Chegamos lá em casa já quase seminus, né, porque viemos nos pegando pelo corredor até a porta. Aí, caímos lá naquele meu sofá cama e ficamos de putaria. Ela tava sem calcinha, daí a gente…

— Bora, Pacha, avança esta fita, te pedi detalhes mas nada mórbido, pelo amor de Deus.

— Tá bem, tá bem. O que aconteceu é que a gente tinha tomado daquele vinho venenoso lá do 911. Aquilo lá é o Mal, cara, eu tô falando.

— Dane-se o vinho, Pacha, eu quero saber lá do raio da bizarrice.

— Então, estávamos em chamas, aquela casa abafada, espelho embaçado e tudo o mais. No que começamos a transar de fato.

— Ué, não estavam já transando? Como assim transar de fato?

— Com penetração.

— Cacete, Pacha, me poupa DESTES detalhes. Vai logo, porra, conta.

— Aí estava tudo uma beleza, ela se divertindo e tudo o mais e de repente ela olha pro lado.

— Viu uma barata?

— Não, antes fosse.

— O que ela viu?

— Meus CDs. Aquelas pilhas de CDs que ficam no chão.

— E daí?

— E daí que ela surtou.

— Surtou como assim?

Assim:

Ela: — O meu Deus do céu!

Eu (pensando): — Ué, mal começamos e ela já está evocando santidades? Ou ela é precoce ou eu sou um garanhão…

Ela: — Não acredito! Não acredito!

Eu (pensando): — Boa, garoto! Você deve estar no caminho certo!

Ela: — Você tem a coleção completa do Belle And Sebastian!!!

Eu: — Ã?

Ela: — Você tem todos! T-O-D-O-S!

Eu: — Escuta, nós estamos no meio de uma coisa aqui…

Ela: — Eu sei, mas cara, sério, como assim você não me falou disso?

Eu: — Desculpa, mas, eh…

Ela: — Bota pra eu escutar, por favor, por favor!

Eu: — Ok! Só que… que tal a gente… eh… terminar o que começamos?

Ela: — Ah… tá, mas, eu queria tanto ouvi-los…

— Pacha, você tá me zoando sério!

— Pois é, Wolminho, foi assim.

— Cacete!

— Ah, o cacete, meu amigo, ficou lá naquele estado, né…Eu fiquei frapê. Saca frapê? Tipo, sacolé fora da geladeira. Aí a camisinha saiu na hora da ação.

— Que nojento, Pacha. Porra, mas e aí? Parou tudo, acendeu as luzes, como é que ficou?

— Ela escolheu o disco que queria ouvir e eu coloquei lá, mas aí eu fiquei bolado com uma coisa.

— O que?

— Eu estava sem a camisinha.

— Comeu merda, seu NERD maldito? Você foi comer a mulher sem proteção?

— Não, cara, eu tinha colocado a camisinha, na verdade ela colocou, mas quando fui me olhar a parada não tava lá.

— Evaporou?

— Eh… não. Ficou com ela.

— Ela guardou tua camisinha? Que mina bizarra!

— Não, pô, ficou dentro dela.

— Dentro? E aí? Como é que tu fez?

— Eu avisei em que situação estávamos, mas ela só queria falar de música, me senti o pior dos caras. Até que eu decidi recomeçar tudo de novo e ela entrou no clima, mas aí tinha lá a caminha, né?

— Ihhhh…

— Pois é. Fui lá e comecei a procurar.

— Como assim?

— Procurar, oras. Procurando.

— Ué, não estava uma pontinha pra fora, nada?

— Não.

— Você só me assusta com esta história.

— A parada ficou lá dentro, entende? Tive que dar uma busca e apreensão. Revistar.

— E ela?

— Ela estava adorando o processo.

— Como é que é?

— Isso aí, Wolminho, ela tava curtindo o processo de busca lá na, mmmm… Caverna do Dragão.

— E tu?

— Ah, algum proveito eu tinha que tirar disso, né?

— E afinal, achou ou não achou a camisinha?

— Achei, claro, mas ela mandou eu continuar procurando assim mesmo. Tudo isso ao som de Belle And Sebastian.

— Pacha, não sei se eu choro ou rio com você!

— Nem eu, meu amigo, nem eu… Mas eu tenho que te falar uma coisa. Agora eu sei porque é que ela usa aquele lacinho no pescoço!

— Lá vem…

— Lembra de uns comentários misteriosos que tem aparecido lá no meu blog?

Pausa para explicação:

Na ocasião eu mantinha um blog chamado Grita Da Grade. O Grita era um blog em que eu despejava minhas urbanices, rabujices, coisas irritantes do cotidiano e também uma ou outra crônica ou conto.

Voltando à programação…

— Claro, tu achou até que era algum maluco destes de internet.

— Pois era ela! Era ela, cara! Ela lia e comentava freneticamente todos os posts! Ela viu que eu freqüentava o 911 pelos nossos comentários lá nos posts e a danada passou a ir pra lá numa de me encontrar. Acabou me reconhecendo e me catou, saca? A parada é que ela comentava muito, intensamente, qualquer merda que eu publicasse.

— Sério?

— O conteúdo dos comentários nem me intrigava tanto, o que me intrigava mesmo era o nickname: Ilha da Garganta Cortada. E é aí que vem a cereja em cima de bolo, meu amigo. Debaixo daquele lencinho vermelho ela tinha uma cicatriz bizarra na garganta, cara, como se ela tivesse sido degolada! Tem noção?

— Escreve isso um dia, Pacha, por favor!

— Um dia eu escrevo, Wolminho, mas primeiro tenho que me recuperar do trauma!

 

* * *

Caros leitores, agradeço a todos que sempre enviam e-mails comentando, fazendo sugestões e pedindo por mais. A vocês mando um muito obrigado bem grande! É ótimo contar para vocês estas minhas desventuras, mas é muito mais legal relembrá-las!

E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)