Mundo NERD: mulheres, jogos e novos espartilhos

Colunista convidada

Postado por Pacha Urbano em 05 de março de 2012 em Nerdices com as tags , , , , , , , , , , ,

Nós NERDs, sempre reclamando da falta de reconhecimento das outras pessoas pelos nossos interesses, às vezes não conseguimos enxergar um palmo à nossa frente. Como é para uma companhia não-NERD, seja amiga(o), namorada(o), esposa(o), lidar com os nossos caprichos e hábitos? A nossa colunista convidada, Akemi Aoki, vem nos trazer o ponto de vista daqueles que desejando estar ao nosso lado fazem esforços inimagináveis para nós, e de quebra levanta uma questão delicada e polêmica.

_______________

Mundo NERD: mulheres, jogos e novos espartilhos

por Akemi Aoki

Frustração da minha vida é não ser NERD, porque ser NERD agora é a parada (A Lu me diz sempre que o nosso problema é sermos CDFs em vez de NERDs). Eu queria ter coleção de bonequinhos do Star Wars (clichê, mas sou tão pouco NERD que é a primeira e única referência que me vem à cabeça), vestir camisa de bonequinhos de pixels e gostar de vídeo-game, por exemplo, porque é legal. E eu que sou mulher e japa ainda por cima, uau, ia ser o frenesi! Mas bem, não.

A Isabel Ferreira vlogou outro dia para falar sobre a entrada perturbada das mulheres no mundo NERD, especificamente no universo dos games, inicialmente dominado pelos meninos (como a maior parte das coisas). Aos poucos o público feminino foi sendo mais bem aceito e hoje uma menina gostar de games não é estranho como há alguns anos, mas perfeitamente autêntico. O problema, de acordo com ela, é que a presença feminina vem muitas vezes ligada a uma apelação sexual, instaurada pelas próprias mulheres. A mulher gamer/nerd/geek gostosa ou fofinha virou um fetiche. Não basta gostar de jogar e jogar bem, como basta para os homens.

O mulherio pesa na maquiagem e afunda o decote em fotos com joysticks, promovendo-se não pela qualidade do seu trabalho, mas “dando-se a consumir” como um objeto fetichista. Acho que é esse também o caso das meninas heavymetal, com seus corpetes e espartilhos, cabelos vermelhos e lentes de contato. Sobra alguma coisa de game ou de música no final do dia ou tudo realmente só conflui para a sedução banal? Um grito desesperado por aceitação, saído do decote mais profundo de uma mulher que ainda não conseguiu se libertar da obrigação de agradar ao homem…

O caso é que isso pode afligir de jeito até pior aquelas que não gostam de games, como eu. Eu não precisava ser uma gamer, mas eu podia pelo menos gostar, assim, um tiquinho. A vida dessas meninas é mais simples na fanfarronice de agradar ao homem, de uma certa forma. Elas entendem exatamente por que não podem aspirar a disputar o controle da televisão ou qualquer tipo de atenção quando o carinha estiver ali. Elas não se sentem desprezadas porque compreendem perfeitamente e assumem a mea culpa: elas também cometem desatenções com as pessoas que não gostam de vídeo-game.

Uma menina que joga vídeo-game é um achado inigualável e é por isso que ela virou um fetiche. Além de ela potencialmente ter o cérebro mais desenvolvido pelos anos de estratégias virtuais, nunca acontecerá com ela aquilo que acontece com uma menina que não gosta de vídeo-game: a menina que não gosta de vídeo-game luta para manter os olhos abertos enquanto os meninos demonstram toda sua habilidade manual. Ela quer bocejar, mas não pode, porque isso acabaria com a auto-estima do garoto e com a sua própria dignidade (afinal uma mulher insatisfeita apenas levantaria e iria embora). Mas então ela finge. Ingênua, pensando que será para o bem de todos, ela finge. Ela é capaz de gemer de entusiasmo, e espera com todas as forças que ele não repare que ela está olhando pro quadrado errado da tela. A única coisa que ela quer é que ele termine logo. Mas aquilo parece não ter fim, ela está ficando com câimbras de manter aquela cara concentrada de satisfação. Ela só espera pelo game over. Só que algumas vezes ela simplesmente não consegue evitar e cochila antes disso. Ele fica triste, é claro, mas a verdade precisa vir à tona alguma hora. Aí ele fica puto não só porque ela cagou e andou pro desempenho dele, mas também porque ela fingiu. E está tudo acabado.

Eu sou bem adaptada à idéia de que nunca serei um achado inigualável, me mantendo digna diante do meu console sem Playstation, Xbox… Sem nem mesmo Wii, que é para menininhas e velhinhos. Eu nunca tive um vídeo-game, nunca joguei Mario Kart e meu The Sims era emprestado. Fui uma criança sexista e agora é tarde. Meus pais chegaram a me perguntar se eu não queria ter um. E eu respondi, dando sinceramente de ombros: vídeo-game é para meninos. Eu, como boa menina, fazia outras coisas, e era feliz. Eu desenhava hipopótamos e fazia dobradura, por exemplo. Eu teria achado a Isabel uma menina esquisita. Já àquela época eu era uma velha coroca e não me apetecia a idéia de passar “aquele tempo enorme hipnotizada por uma tela” (logicamente isso foi bem antes do Facebook). Aquilo deixava os meninos abestalhados.

Mal sabia eu que eles sempre foram abestados, mesmo na época dos brinquedos artesanais de madeira.

Além disso, aquilo era tão subalterno que eu era uma autoridade do vídeo-game mesmo sem ter um. Das poucas vezes que joguei, na casa dos meus primos, sempre ganhei. Eu era a rainha da porradaria no Street Fighter. Só alguns anos depois eu vim a perceber que a minha técnica infalível de vitória era ser a única menina, com pelo menos cinco anos a menos que todos eles, café-com-leite do vídeo-game, e então já era tarde. Se eu tivesse sabido que eu era ruim, talvez tivesse encarado como um desafio e pedido de Natal. Mas fui bem enganada.

O mundo girou, os meninos abestados viraram os NERDs, que são legais e estão na moda. E eu cresci. Hoje finalmente percebo que a abestada sou eu, que não faço a menor idéia de para qual personagem olhar, jogo todos os carros de corrida no abismo, fico enjoada com a porcaria do tiro em primeira pessoa e me abobalho toda com a habilidade dos outros.

Sou que nem um bebê brincando de peek-a-boo diante de qualquer coisa que eles fazem, apesar de cochilar depressa.  Sem decote, sem joystick, à minha própria sorte, à espera do game over redentor, que nunca chega.

_______________

Akemi tem 22 anos, é estudante de Literatura, vive atualmente em Strasbourg, na França. Gosta de sol, de biscoito amanteigado e de dores musculares. Akemi sempre pensa que poderia ter sido mais NERD, mas acredita que um dia reconhecerão o seu valor.