Art Spiegelman, quadrinhos e o holocausto

Postado por Annacro em 05 de junho de 2012 em Nerdices com as tags , , , , , , ,

por Nathan Fernandes

Ainda era de manhã quando o quadrinista Art Spiegelman entrou no auditório da Editora Abril, em São Paulo, dia 28 de maio, para falar de seu trabalho. Sentado ao seu lado, no palco, estava a esposa Françoise Mouly, editora de arte da revista The New Yorker, a quem ele se refere romanticamente como The Boss.

O único autor de quadrinhos a ganhar um Prêmio Pulitzer discorreu bem humorado sobre a obra “Maus”, as revistas Arcade e RAW, antológicas publicações de quadrinhos underground, e o trabalho na The New Yorker.

Fumando um cigarro eletrônico, o artista contou que não curtiu ser editor na revista Arcade. “Todos os artitas te odeiam quando você é um editor de quadrinhos, porque você tem que fazer o pau deles parecer menor”, brincou. Depois da Arcade ele jurou que nunca mais trabalharia com revistas. [Corta para o futuro] Algum tempo depois, fundou a RAW com sua esposa. Foi nela que começou publicando a história de “Maus” em série. Para Spiegelman, o holocausto pode ter derrubado a arte, mas , com “Maus”, a arte derrubou o holocausto.

O artista também comentou sobre uma de suas mais célebres capas da The New Yorker. “Nós trabalhávamos muito perto de onde aconteceu o atentado e tudo aquilo parecia mentira, mas, se estivéssemos em dúvida, era só olhar para trás e ver, da janela, o estrago”, conta. Não havia maneira de reprodizir o sentimento de perda e confusão. A capa preta era a única forma. “Algumas pessoas demoraram meses para perceber que havia um desenho ali”.

Capa célebre feita por Art poucos dias após o atentado de 11 de setembro que derrubou as torres gêmeas

Antes de ir à PUC para ter seu MacBook roubado, ele ainda teve tempo de autografar os livros das pessoas que se enfileiravam na beira do palco. Enquanto assinava e desenhava um ratinho fumante, dobrava sem dó as capas das obras. Dor no coração define. Mas, ok, poucas pessoas tiveram um livro estragado por Art Spiegelman.#

Vladek Spiegelman, um velho judeu simpático

por Estela Rosa

Maus é uma graphic novel de Art Spiegelman. O autor é quadrinista, nova iorquino e filho de judeus. Em uma tentativa de reaproximação, resolve entrevistar seu pai, Vladek Spiegelman, sobrevivente do holocausto. O resultado é uma narrativa com histórias de judeus e poloneses que conviveram com ele no período da Segunda Guerra Mundial. Misturada aos relatos, surge a relação turbulenta de Art com seu pai e o traumático suicídio de sua mãe, quando Art tinha apenas 20 anos. Buscando entender melhor a vida de seus pais e talvez justificar a atitude de sua mãe, o autor mergulha em uma espécie dolorida de entrevista, que o faz se sentir culpado por tanto sofrimento e ao mesmo tempo distante de suas raízes.

Conheci o Art Spigelman por indicação de um amigo. Nessa época eu nem era tão fã assim de quadrinhos. Gostava de Snoopy e Garfield. Minhas experiências eram com Mônica, Urbano, o Aposentado e, indo muito longe, Mafalda. Bom, me falaram dele, de como Maus era uma história devastadora e bem escrita, apesar de um pouco tendenciosa. Fiquei curiosa. Anos depois (já envolvida por Liniers, Quino, Laerte, Lan), um dia na casa de um grande amigo, Pacha Urbano, me deparo com uma edição de Maus, em volume único. Lembrei das conversas que havia tido e levei o livro comigo. Quilos a mais na bolsa. Fiquei feliz.

Mal sabia eu que aqueles quilos pesariam também na minha consciência. Maus foi minha experiência séria com quadrinhos, era uma temática difícil e longa. Minha primeira graphic novel. Eu, dramática como sempre fui, não poderia começar de outra maneira. Achava engraçadinho os gatos serem os Maus da história. Até o momento em que descobri que Maus, na verdade, significava rato em alemão. Tudo perdeu o sentido e embarquei na narrativa meio novela, meio jornal de Art Spigelman.
Muitas cenas me chocavam. Sim, cenas. Os desenhos de Art não são desenhos, são cenas sombrias. Todos os personagens têm rostos de animais, as “raças” são divididas em diversos bichos. Judeus como ratos, poloneses como porcos e os alemães, gatos. Ainda assim, isso em nada diminui o sofrimento e a intensidade de cada momento narrado. O holocausto sempre me pareceu terrível nos livros de história, nos filmes, nos documentários, mas a leitura despretensiosa de um livro de quadrinhos pega você de surpresa e te coloca na posição de Art: um confidente esperando sempre pelo pior.

“Foi quando um dia, no ônibus, engarrafada na Linha Amarela, indo para o trabalho, já cansada de mais um dia, fiquei engasgada com uma frase.”


Foi quando um dia, no ônibus, engarrafada na Linha Amarela, indo para o trabalho, já cansada de mais um dia, fiquei engasgada com uma frase. Já tinha ficado outras vezes enquanto lia o livro. Algumas vezes com os desenhos, outras com relatos, mas dessa vez eu havia parado em um pequeno trecho, quase descontextualizado do resto, dito em um momento um tanto descontraído do livro. O pai de Art diz, após relatar mais um de seus momentos de miséria: “Se quer sobreviver, só sendo simpático”. Não sei se a frase era exatamente assim, mas o que ficou foi isso. Sobreviver sendo simpático. Aquilo ecoou em minha cabeça e comecei a chorar. No meio de tanta tristeza, tanta dor, a estratégia daquele homem foi a simpatia. Ele poderia fazer de tudo, trocar as poucas coisas que tinha em mãos, se vender, fingir, mas não: para sobreviver ele, simplesmente, foi simpático.

Hoje, depois de ler outros quadrinhos e livros, vejo que sou contra diversas posturas adotadas em Maus. Não concordo com essa postura sofrida, com o tom de inocência que Art dá às palavras do pai. Mas não posso negar que fui sim arrebatada por aquelas histórias. A história de um descendente do holocausto, que mistura sua vida, a vida de seu pai, de sua namorada, da mãe, compondo um livro dolorido e delicioso de ser lido. Um relato em terceira e primeira pessoa, que dá espaço para as memórias de um velho judeu, caricato, um ilustre sobrevivente do holocausto.

No final do ano passado, a televisão americana BBC fez uma entrevista com Art Spiegelman pela ocasião do lançamento do livro MetaMaus, que traz um dvd com bastidores da produção do graphic novel Maus e gravações originais das conversar entre Art e seu pai.

Durante a conversa com o repórter Nick Higham, perguntado se a história de Maus é algo que ele conseguirá um dia deixar para trás – motivo que o levou a fazer o HQ -, ele responde que gosta de pensar que sim.
O autor afirma ainda que fazer o livro foi como domar uma fera para ele que nunca poderia imaginar o sucesso que a obra teria. Assista à entrevista na íntegra (em inglês)

Assista ao ‘trailer’ do livro MetaMaus (em inglês)