NERD NO RINGUE #015

Postado por Pacha Urbano em 27 de julho de 2012 em Nerd no Ringue com as tags , , , , , , , , , , ,

HALLOWEIRD

por Pacha Urbano

E eu falando de Carnaval na coluna passada quando na verdade o que sempre me pareceu muito esquisito é o Haloween. E aí me lembrei de um episódio muito bizarro, lá pelos idos de 2003, e que só poderia acontecer comigo, claro.

Há um tempo eu tinha um blog dado à resmunguices (que já mencionei aqui em NNR#013) e por conta disso freqüentava um grupo de blogueiros muito divertido em que sempre nos reuníamos para festejar e falar mal dos outros. Um destes festejos foi uma festa de Halloween e claro, era a caráter. Quer dizer, era para ir fantasiado com algum tema relacionado a isso, como costuma ser.

Faltando alguns dias para a festa, um casal de amigos e eu combinamos de nos encontrar naquele McDonald’s ali na esquina da Rua Uruguaiana com a Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro.

O encontro era para procurarmos fantasias para a festa de Halloween, e aquele lugar era ideal para isso.

Infelizmente, por causa da chuva, ficamos um pouco desanimados, e nos arrastamos de loja em loja como ratos molhados.

Até que entramos em uma que não era lá das piores. Mas, se você for pensar, fantasias fuleiras assim são sempre a mesma porcaria. Os temas variam muito pouco.

Nesta loja por exemplo, a variação era tão sutil que era preciso ser bem observador para notar as diferenças. Um bom exemplo era a fantasia de marinheiro.

Era a mesma fantasia na vitrine com o título de Quico, do Chaves, de Popeye e de Pato Donald. A diferença entre elas era que a do Quico vinha com meias amarelas, a do Popeye trazia um cachimbo de plástico como assessório e a do Pato Donald não vinha com a parte de baixo.

Entramos sem saber exatamente o que queríamos, até que encontrei o que precisava: uma fantasia de esqueleto, no melhor estilo calavera mexicana.

Tudo bem que ela era muito feia e tosca, mas gostei muito mesmo.

E a coisa toda começou mais ou menos assim:

― Bom dia, eu quero experimentar esta fantasia aqui, ― apontei na vitrine do balcão ― de esqueleto.

― Bom dia, néim.

― Desculpe, mas do que você me chamou?

― De néim, ué.

― Ah.

Olhei pro meu amigo, que olhou pra mim, que olhou pra sua namorada.

Continuei:

― Eu quero experimentar esta fantasia aqui, de esqueleto, mas tem quer ser dessas G de criança, porque quero que fique justa.

Na época eu nem pesava 60Kg.

― Ã? Ah, de criança não vai dar em você não, tem que ser de adulto, néim.

― Escuta, você não entendeu. Eu quero esta de criança porque é pequena e vai ficar justa em mim, do jeito que eu quero que fique. Entendeu?

― Olha, néim, é pequeno, é pra criança de 12 anos.

― Você tá ouvindo o que eu estou falando pra você?

Nisso o Madruga já se afastou, foi olhar umas fantasias que estavam na porta, rindo.

E eu lá, lutando com a mulher para ela me dar o raio da roupa.

― Tá, néim, eu vou ver aqui com a dona se você pode experimentar. Vai querer a de 12 mesmo? Não quer aquela ali de adulto não?

― Humpf! Porra.

Ela vai até o fundo da loja e volta com uma portuguesa do lado.

A portuguesa olha pra mim, mas falando com a vendedora, como se eu não soubessa falar, ou fosse um manequim:

― Não vai dar nele não. Ele é adulto. Tem que usar daquela ali ― e apontou pra uma gigantesca, quase um bate-bola ― de adulto. Essa aí ele vai esgarçar.

― Vai não, acho que dá nele sim. Ele é magricela. ― diz a vendedora me medindo com os olhos.

― Escutem, eu só quero experimentar a fantasia, se não der eu não levo, porra.

― É, não vai dar nele não ― diz a vendedora esticando a fantasia com a mão ―, vai ter que ser aquela de adulto, néim.

― Minha senhora, eu posso ir ali no provador e colocar esta fantasia logo pra ver se vai dar ou não? ― falei alto e grosso, pra encurtar o assunto.

Entrei na cabine com a fantasia na mão.

Vesti, e realmente estava apertada.

Elas tinham me dado a P de criança e não a G como eu tinha pedido.

De dentro da cabine eu gritei:

― Não passa nem nas coxas, tá muito apertado! Isso aqui é P, pombas!

― Eu te falei, néim, é pra criança, tem que ser a de adulto mesmo! ― grita de fora a vendedora, enquanto ouço a portuguesa resmungando.

― Olha, me passa aquela G de criança como eu pedi por favor!

Ela traz a tal fantasia do tamanho que eu queria, e tudo fica do jeito que imaginei.

Olhei no espelho, e estava jóia.

Abri a cortina do provador pro meu amigo e sua namorada verem o resultado.

Riram.

Troquei de roupa, coloquei a fantasia no saco outra vez e fui para o caixa:

― Vou levá-la. ― disse pra vendedora.

― Tem certeza, néim?

― Sim, é isso o que eu quero.

― Porque você não leva esta capa? – pergunta a portuguesa.

― Ã? Capa? Não, não quero.

― Por quê será que eu não trouxe a máquina? – resmungou o meu amigo.

Na parede do fundo da loja, onde tem o caixa logo à frente, estavam alguns calendários antigos, quadros religiosos, e umas fotos antigas, bem típico estabelecimento de família portuguesa, caótica.

Entre estas fotos estava a de uma criança de uns 3 anos com um cachimbo preto na boca, onde se via uma mão de velho segurando-o.

Olhei pro coroa no caixa e lá estava ele com um cachimbo preto, apagado.

― Débito ou crédito? ― perguntou.

― Débito.

― Digita a senha aí. ― e estendeu a maquininha.

Digitei a senha, ouvi o barulhinho da impressão e então:

Olhei pro papelzinho, olhei pro coroa, olhei pra foto do molequinho fumando cachimbo, olhei pro meu amigo e a namorada dele e olhei de volta pro papelzinho.

― O senhor tá de sacanagem comigo? O senhor acaba de debitar R$500,00 da minha conta! ― e passei o papelzinho por cima do vidro pra ele ver.

― É mesmo… ― olha pra mim com um sorriso e diz ― Tá com dinheiro, heim!

― O que foi que o senhor disse?

― Ué, se foi tirado R$500,00 da sua conta é porque você tá com dinheiro. ― e riu amarelo.

― Meu senhor, a compra é no valor de R$49,90, o senhor me dá um rombo desse de R$499,00? Imagina se eu só tivesse visto isso em casa? Como é que ia ficar?

― Olha, eu vou dar um jeito, vou ver aqui pra menina te estornar, pode deixar… ― disse, sem jeito.

― Tá, mas me dá aqui este papelzinho, porque vou guardá-lo. Isso vai me render uma boa história pra contar depois.

Meus amigos, nesta hora só riam e o desgraçado só se lamentava que não havia trazido a câmera.

Alguns minutos depois e ele me pede para digitar a senha outra vez, e desconfiado, olho cada letrinha no display, uma a uma.

Rolou o tal estorno, e ele me deu a notinha da nova compra, melhor, da mesma compra, mas com o valor certo.

Ainda bem que eu tive testemunhas fidedignas para confirmar esta história, porque simplesmente ninguém ia acreditar se eu contasse. No final das contas a fantasia ficou muito boa em em mim.

Saímos da loja e ainda ouço este meu amigo dizer que eu sou um imã pra estas coisas.

E realmente sou, porque vira e mexe isso rola comigo.

Como aquela vez da garota que fiquei no bloco que era feia como a fome. Mas se todo o mal fosse este, tinha ainda a suspeita de que poderia ser pior. Aquilo foi de lascar.

Mas acho melhor deixar para a próxima coluna mesmo.

E para aqueles que quiserem escrever para este NERD que vos fala, mandem emails para pacha@pachaurbano.com. Prometo responder a todos vocês mesmo que seja no Ctrl+C Ctrl+V! =)